Se você chegou aqui por um link que alguém da família mandou, comece por isto: ninguém está te acusando de nada. Te mandaram o link porque te querem por perto.
Se você é a mãe ou o pai e está pensando em mandar este texto, pode mandar sem introdução. Ele foi escrito para essa conversa.
O que está acontecendo, em poucas linhas
Uma criança autista processa o mundo de um jeito diferente. Som, luz, toque, cheiro e movimento chegam com outra intensidade. Às vezes chegam demais, às vezes de menos.
Quando chega demais, o corpo avisa. E o aviso pode ser tapar os ouvidos, correr, chorar, se jogar no chão, parar de responder.
Isso não é falta de educação. Não é manha. Não é resultado de mimo, de tela, de comida ou de pai ausente. E não é fase.
O que costuma machucar sem querer
Frases que quase todo mundo já disse, com a melhor intenção do mundo:
"No meu tempo isso não existia." Existia. Não tinha nome, e as crianças que hoje têm apoio antes eram só chamadas de estranhas.
"Ele é tão bonitinho, nem parece." Parecer não é critério. E isso sugere que ser autista é algo ruim de aparentar.
"É falta de pulso." Essa frase transforma uma dificuldade da criança em culpa dos pais. Ela cansa mais que qualquer crise.
"Fulano melhorou com tal coisa." Antes de sugerir tratamento, dieta ou profissional, pergunte se a família quer sugestão. Quase sempre eles já ouviram aquela, quinze vezes.
"Vem cá dar um abraço no vovô." Toque de surpresa pode ser desagradável de um jeito físico, não emocional. Recusar abraço não é rejeitar você.
O que ajuda de verdade
Avise antes. "Vou te dar um abraço, pode?" Funciona melhor que chegar abraçando.
Entre na brincadeira que já está rolando. Não é preciso propor nada novo. Se ele está alinhando carrinhos, alinhe um carrinho junto e fique quieto. Estar junto já é muita coisa.
Repita sem reclamar. Se ele quer ver o mesmo vídeo pela décima vez, ou ouvir a mesma história, a repetição é o que organiza. Aguentar a repetição é presente.
Fale mais curto. Uma instrução por vez. Espere a resposta. O tempo dele pode ser mais lento que o seu, e isso não é desatenção.
Aceite a saída. Se ele sai da mesa no meio do almoço de domingo, deixe sair. Voltar é mais fácil quando sair foi permitido.
Pergunte antes de corrigir. Antes de dizer "assim não", pergunte para os pais se aquilo é ponto de correção. Muita coisa que parece errada é justamente o que está funcionando.
Nos almoços de família
O almoço de domingo é campeão de dia difícil. Muita gente, muito barulho, cheiro forte, todo mundo falando junto, ninguém sabendo a hora que vai acabar.
Algumas coisas que ajudam, e que dependem mais de você que dos pais:
- Um cômodo mais silencioso disponível, com a porta aberta e sem ninguém achando ruim.
- Deixar que ele coma o que come. Prato repetido não é o problema do dia.
- Não fazer plateia. Se ele fizer algo diferente, siga a conversa normalmente.
- Não comentar o comportamento na frente dele. Ele entende, mesmo quando não responde.
- Perguntar aos pais, antes, se tem alguma coisa que ajuda. Essa pergunta sozinha já muda o clima.
O que os pais mais precisam
Não é conselho. É gente por perto.
Levar uma comida pronta. Ficar com a criança uma tarde para eles dormirem. Perguntar como eles estão, e não só como a criança está. Aparecer sem julgar a casa bagunçada.
E dizer, de vez em quando, alguma coisa boa sobre a criança. Não sobre progresso, nem sobre evolução. Sobre ela: o jeito que ela ri, o assunto que ela adora, o quanto ela sabe sobre dinossauro.
Famílias assim ouvem avaliação o tempo todo. Ouvir carinho sem avaliação é raro.
E se você errar
Você vai errar. Vai dizer alguma frase dessa lista, vai insistir num abraço, vai comentar alguma coisa.
Peça desculpa curta, sem drama, e siga. Errar e continuar por perto é infinitamente melhor que se afastar com medo de errar.
Cada família tem seus combinados, e quem acompanha a criança de perto pode ajudar a afinar o que funciona por aí.
Para levar
- Não é manha, não é criação, não é fase. É um jeito diferente de processar o mundo.
- Avisar antes de tocar, falar curto e aceitar a saída resolvem mais que qualquer conselho.
- Os pais precisam menos de sugestão e mais de companhia sem julgamento.
